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QABOOS
centro de estudos
em ciências humanas
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Sociedade, espírito e ritual: In www.sheldrake.org
Nesta parte do ensaio eu pretendo explorar algumas idéias sobre os aspectos culturais e sociais dos campos mórficos e da ressonância mórfica. Uma comparação familiar nos remete às colméias e aos cupinzeiros. Esses agrupamentos são como organismos gigantes nos quais os insetos são como células do superorganismo. Embora reunindo milhares e milhares de "insetos-indivíduos-células", o cupinzeiro e a colméia possuem uma dinâmica de existência que funciona como um todo unificado. De acordo com minha hipótese, as sociedades estão ligadas a campos mórficos próprios que organizam suas estruturas e orientam suas tendências culturais, influindo sobre todos os que estão em sintonia com estes campos. Tal como colméias e cupinzeiros, embora as sociedades sejam compostas por milhões e milhões de indivíduos, sob certos aspectos, podem reagir como um todo orientados pelas características de seus campos mórficos. Muitos dos campos energéticos da natureza já conhecidos da ciência possuem uma propriedade semelhante à uma espécie de onipresença, propriedade pela qual se encontram tanto ao redor como dentro das coisas simultaneamente; é uma capacidade de permear, se estender continuamente sem barreiras ou impedimentos em relação a corpos ou substâncias mais densas. Os campos magnéticos, por exemplo, possuem esta característica. É o caso campo gravitacional; a gravidade atua sobre todos os corpos presentes na superfície do planeta1. Deste modo, a teoria dos campos introduz uma perspectiva da realidade que transcende as rígidas definições de "dentro" e "fora". A biologia comportamental surgiu nos anos de 1920. Edward O. Wilson, fundador da sociobiologia, assinala em seu livro Sociedades de insetos (The insect societies, 1971) que ocorreu uma mudança de paradigma em favor do mecanicismo reducionista quando a explicação para as organizações das sociedades animais se fundamenta em termos de interações entre programas genéticos individuais. Entretanto, existe um problema com esta concepção; se as sociedades animais são como um superorganismo, que tipo de superorganismo é esse? Eu sugiro que existe um campo mórfico que envolve todos os animais. Esse campo coordena a dinâmica do todo bem como, em outra escala, o campo mórfico do corpo humano orienta funções de células, tecidos e órgãos. É uma concepção que descreve as características do fenômeno das sociedades animais de modo mais satisfatório que a idéia de interações meramente individuais ou localizadas entre os seres e as coisas.
MARAIS E OS CUPINS BRANCOS Um caso exemplar é a forma como os térmitas (cupins) elaboram a estrutura de seus cupinzeiros, dotados de colunas entremeadas por arcos em distâncias e medidas regulares. Os térmita são cegos. O interior dos cupinzeiros é escuro; não obstante, os cupins executam estas construções sem o auxílio de um sentido de visão. Edward O. Wilson considera improvável que os cupins se utilizem da audição para realizar a tarefa por causa do constante ruído produzido pela movimentação dos insetos. A hipótese de Wilson, considerado um dos mais expressivos representantes do pensamento reducionista, é que a proeza torna-se possível por meio do olfato, idéia que o próprio Wilson admite ser um tanto forçada. Entretanto, se a construção das colunas e arcos for orientada por um campo mórfico social (de coletividade, de ação coletiva) que envolve todo o cupinzeiro e que contém e comunica as coordenadas do "molde" das estruturas então os movimentos dos cupins seriam guiados por informações oriundas deste campo e, assim, seria fácil entender como os arcos e as colunas são construídos de acordo com uma arquitetura tão regular. É uma possibilidade que pode ser investigada experimentalmente. Nos anos de 1920, o biólogo sul-africano Eugene Marais escreveu A alma das formigas brancas (The soul of white ants) onde descreve suas pesquisas sobre o que acontece quando os ninhos dos térmitas sofrem danos em suas estruturas. Marais introduziu lâminas de aço no centro do cupinzeiro e em variados locais ao redor. As lâminas foram inseridas em profundidade causando dano considerável. Os cupins recuperaram as estruturas construindo arcos e colunas em torno dos limites das lâminas. Seus movimentos eram coordenados mesmo quando grupos de construtores se encontravam separados pelas chapas de aço. Curiosamente, os cupins, ainda que isolados pelas lâminas construíam as colunas e arcadas em proporções e distâncias regulares em relação às estruturas além das paredes de aço. Isto parece demonstrar a existência de algum tipo de influência orientadora que não se detém diante de um obstáculo sólido. Obviamente, tal coisa seria impossível de ser feita tendo como guia o olfato, como Wilson chegou a sugerir. A experiência não foi repetida, embora seja uma empresa fácil de se realizar em países onde os cupinzeiros são comuns. Se o resultado de Marais pudesse ser repetido, isso seria um forte indício da existência de um campo (comportamental) orientador das ações dos indivíduos em casos de mobilizações coletivas.
WAYNE POTTS E AS MANOBRAS COORDENADAS DOS PÁSSAROS Outro exemplo ilustrativo da idéia de coletividade como superorganismo é o comportamento dos peixes. Quando predadores introduzem-se em um cardume os peixes movimentam-se rapidamente para os lados abrindo um caminho no meio do grupo. Eles se movimentam muito velozmente em relação ao estímulo inesperado e, nesta movimentação, não se chocam uns com os outros. O mesmo acontece com bandos de pássaros. A revoada se move como se fosse um só corpo, sem colisões entre indivíduos. Recentemente, o pesquisador americano Wayne Potts esteve investigando o comportamento de diferentes grupos de pássaros. Ele filmou seus movimentos em rápida velocidade de exposição mas quando submeteu o filme à lenta reprodução, à câmera lenta, quadro a quadro, descobriu um fenômeno que denominou "movimento de onda", um tipo de manobra extremamente veloz, propagando-se de pássaro para pássaro segundo intervalos em torno de 20 milésimos de segundo; uma evolução muito rápida da evolução dos pássaro a partir do momento do estímulo. Ele mediu o tempo usando pássaros em laboratório, sob condições de completa escuridão e também sob luz ofuscante. Usando flashs de luz,determinou o momento exato de início de reação dos pássaros que, individualmente, respondiam ao estímulo depois de 80 a 100 milésimos de segundo, ou seja, como indivíduos, os pássaros reagiram, em média, quatro vezes mais lentamente do que na situação coletiva, em "movimento de onda". Nos bandos, a movimentação começa mais rápido, quer fossem movimentos laterais, para frente ou para trás. A evolução, na revoada, era iniciada por um único pássaro ou por um pequeno grupo, propagando-se, então, rapidamente entre todos os pássaros, fato que Wayne explica pela ação de um sistema simples de sugestão visual.
COMPORTAMENTO COLETIVO EM GRUPOS HUMANOS Admitindo que os bandos de pássaros são coordenados por um campo mórfico e que os "movimentos de onda" propagam-se através deste campo então o fenômeno (do vôo coordenado) torna-se mais fácil de entender, do que sob a ótica da psicologia sensorial convencional. Os exemplos acima ilustram um pouco das concepções que ganham espaço em áreas do conhecimento nas quais as investigações práticas são possíveis (passíveis de experimentação objetiva), experiências que sugerem a existência de uma "mente de grupo" ou campos de comunicação próprios, energéticos, substanciais, conexos a grupos, relacionados aos comportamentos coordenados de coletividades animais. Tem sido sugerido que um fenômeno similar pode ocorrer em atividades de grupos humanos, especialmente no que se refere ao comportamento das multidões. Alguns estudos têm sido desenvolvidos. A psicologia social denomina o fenômeno "comportamento coletivo" do qual são exemplos: as grandes aglomerações de torcedores de times de futebol, hordas que se mobilizam em torno de revoluções políticas, casos de linchamento, rejeições coletivas bem como todo tipo de rápida propagação de um fenômeno comportamental ou de usos em sociedades, como as modas, as fofocas ou boatos, os hábitos de entretenimento, os jogos; são fenômenos notavelmente apropriados como objetos de estudo da teoria dos campos mórficos associados a grupos humanos. Em entrevistas, atletas de times vitoriosos comumente comparam suas equipes a um organismo composto no qual todos os integrantes estão coordenados e conscientes sobre o desempenho funcional esperado de cada um dos jogadores. O time se comporta mais como um organismo do que como uma composição de individualidades. Ao longo dos treinos em grupo, os times definem as funções de cada atleta. Palavras como "empatia" ou expressões como "sexto sentido" são usadas com freqüência quando os atletas descrevem a sensação que experimentam. Se as sociedades são coordenadas por campos mórficos então podemos compreender que também estes grupos, tais como comunidades ou nações, se reúnem e se dispersam, como pode acontecer com um time esportivo mas, naturalmente, as sociedades devem ser conexas com campos mórficos mais fortemente estabelecidos no tempo e no espaço. Nós estamos nestes campos, literalmente, todo o tempo; campos de família ou parentesco, campos de nacionalidade, de localidade, campos dos vários grupos aos quais pertencemos. Seria uma condição inerente à existência o fato estarmos "contidos", "mergulhados" nestes campos, sujeitos à ressonância de um amplo espectro de padrões coletivos de organização; mas porque estes campos estão sempre presentes, não os percebemos; podemos admitir sua existência da mesma forma como reconhecemos a existência do ar que respiramos, sempre presente e tão natural que nos tornamos indiferentes à substancialidade do ar e ao próprio ato de respirar. Mas se prendemos a respiração por algum tempo, se nos afogamos no mar, logo sentiremos a ausência do ar e rapidamente tomaremos consciência do quanto precisamos dele. Analogamente, pessoas submetidas a confinamento solitário, rapidamente manifestam reações que refletem a importância da interação social. Muitos antropólogos têm comentado sobre "um algo indefinido" que mantém juntos os membros de uma sociedade. O sociólogo francês Emile Durkheim, refere-se a este "algo" como "consciência coletiva" (em francês, a palavra consciência refere-se tanto ao estado e instância psíquicos opostos à inconsciência e inconsciente quanto às idéias de percepção, sentimento). Ele acreditava que uma das principais funções da "consciência coletiva" era manter a coesão do grupo social. É uma idéia próxima às concepção de campo de grupo, mente de grupo e muitas das atividades da consciência de grupo são relacionadas à sustentação, equilíbrio e continuidade da existência do próprio campo coordenador do grupo.
A SOMBRA E A MENTE GRUPAL DE McDOUGALL Na década de 1930, William McDougall (1920-1972), que escreveu Mente de grupo (The group mind) e muitos outros livros sobre psicologia social, cogitava a existência de uma mente coletiva atuante sobre todos os membros de uma sociedade, dotada de pensamentos e lembranças próprios. Se admitimos a mente de grupo como aspecto de um campo mórfico social, a memória desta mente seria aquela memória em construção, que se atualiza, se renova continuamente em função da interferência da ressonância mórfica. O problema com este tipo de idéia é que, até agora, ainda não foi possível definir o quê é "mente de grupo" ou como isto pode ser "medido" - determinado como real, existente objetivamente. Submetida às premissas da sociologia positivista, que prevaleceu em passado recente e ainda hoje se impõe, a concepção de McDougall de "mente de grupo" ou "mente coletiva" não poderia ir muito longe. Em condições sociais traumáticas, em um momento socio-histórico marcado pelo choque, apenas alguns permaneceram receptivos às pesquisas em torno de forças coletivas. Nos anos de 1930, um lado sombrio da consciência coletiva manifestou-se de forma tangível na Alemanha nazista. A expressão desta sombra foi tão funesta e real que muitas pessoas tomaram horror a qualquer concepção de sugerisse a existência de "mentes coletivas" ou consciência de grupo. Esta fobia ao assunto mente coletiva somente começou a ser superado nas últimas décadas (anos de 1960 aos 90). É necessário, portanto, reconhecer que ainda há muito a ser aprendido sobre o pensamento e sobre os aspectos positivos dos campos comportamentais coletivos ou consciência de grupo. Nas teorias socio-antopológicas mais recentes, uma visão holística da sociedade vem ganhando espaço. De fato, assim como tem se verificado com as ciências físicas e biológicas (ciências naturais), que foram durante longo tempo fundamentadas em princípios reducionistas, atualmente, ciências como sociologia e antropologia, ciências humanas, têm procurado estabelecer uma perspectiva holística em bases confiáveis. Esta busca, empreendida mediante um esforço de expansão das fronteiras intelectuais, é uma característica de reflexões, como as de Durkheim, sobre consciência coletiva; ou como o conceito de "mente de grupo" de McDougall, que abriram caminho para Jung e sua concepção de inconsciente coletivo.
A SOCIEDADE É UM ORGANISMO ? A idéia de sociedade humana como um organismo é amplamente difundida; talvez seja a metáfora mais comum em toda a história do pensamento ocidental. Aparece na linguagem em expressões como "o corpo político", "cabeça de Estado", "braço da Lei". Existem metáforas que se referem à Unidade de uma natureza orgânica da sociedade. A mesma noção se apresenta em metáforas religiosas, como as que descrevem a Igreja Cristã à semelhança de um corpo composto de numerosos membros. No século XVII (anos 1600), quando o pensamento político, em geral, se distanciava das concepções atomistas, o filósofo Thomas Hobbes referiu-se à sociedade, enquanto Estado civil, chamando-a Leviatã, monstro gigantesco, de todo modo, um animal, um organismo. Por outro lado, embora muitos de nós pensem na sociedade como um ser coletivo, um organismo vivo, o planeta, a Terra, é um ser entendido e tratado como um ser morto. Isso não foi sempre assim; "mater", em latim, significa "mãe" e também "matéria", enquanto qualquer substância. Em inglês, o termo "matter", matéria, refere-se a qualquer entidade ou coisa perceptível por qualquer meio e "material" designa o físico, o corpóreo. Nas línguas indo-européias, a raiz da palavra, "matter", matéria, é, igualmente, "mother". Infelizmente, desde o século XVII, na consciência ocidental, a imagem viva da "Mãe Natureza" foi trocada pela visão da matéria inerte de um reino mineral feito de pós, pedras e areias, líquidos, magmas, vapores, suportes da vida supostamente mortos. A "Mãe" foi relegada ao inconsciente, somente preservada como recordação etimológica obscura ecoando distante na palavra "matéria". A noção de matéria bruta (em oposição à matéria viva) ainda prevalece. Falamos de crescimento econômico, de uma economia "saudável" ou "doente", de ciclos econômicos. A economia, nestes termos, tem todos os atributos de um enorme ser vivente dotado de uma autonomia que, não raro, escapa ao controle dos políticos, empresários e banqueiros. A economia é um exemplo de sistema autoregulado, auto-organizado e que possui uma essência bastante viva embora seja descrita entre números e gráficos de uma frieza cadavérica. Na realidade, porém, a economia sobrevive às custas da Terra, do planeta, e este é um problema que tem ocupado muitas pessoas. O entendimento de um campo mórfico que abriga uma memória em construção poderia explicar muitos aspectos das experiências da vida social. Tradições, costumes, padrões, podem ser vistos como recursos que capacitam as sociedades a manterem seus princípios de organização, preservando sua autonomia, sua estrutura e relações de sustentação através de gerações, consensualizando as tendências das individualidades em um processo contínuo, entre ciclos de nascimentos e mortes. É um modelo similar ao campo morfogenético que coordena o todo da vida em um corpo orgânico, integrando as atividades das células e tecidos que se matem estáveis em suas funções embora contínua renovação.
RITUAIS: O ESPIRITUAL E O MUNDANO Há certos contextos nos quais a memória social não somente "vem" à consciência mas, antes, é invocada através de rituais. Os rituais são encontrados em todas as sociedades do mundo, tanto os de natureza religiosa quanto os da cultura mundana. Um exemplo é a festa judaica da Passagem ou Páscoa Judaica, que remete à terrível visita da morte ao Egito quando todos os primogênitos pereceram exceto os filhos dos judeus2, protegidos por um ritual: o sacrifício de um cordeiro cujo sangue foi usado para marcar as portas dos israelitas. Na missa cristã, a Santa Comunhão, na qual toma-se o vinho como sangue e o pão como carne (corpo) do Cristo, refere-se àquele ritual judaico primitivo. Na releitura cristã, no mesmo mito essencial, os símbolos são substituídos: Jesus passa a ser o Cristo, "o ungido", cordeiro escolhido para o sacrifício que salva o povo. Em todas as sociedades existem centenas de rituais socioculturais. Na América (USA), existe o costume nacional do Jantar de Ação de Graças que comemora o primeiro destes jantares, oferecidos pelos colonos depois de se estabelecerem em New England. Existem também os pequenos rituais cotidianos, como nossos gestos de saudação e despedida. A expressão "good bye", por exemplo, foi, em sua fórmula original "God be with you" (Deus esteja com você). Assim, quando dizemos "good bye" estamos proferindo uma benção em um gesto que ainda conserva algo da força de um ritual muito antigo e muitas pessoas ainda têm consciência daquele significado original. Gestos semelhantes, em pequena em larga e escala, ainda persistem em nossas modernas condutas esclarecidas. O quê as pessoas pensam que estão fazendo quando praticam rituais? Na maioria dos rituais, geralmente, a cerimônia é associada a um história (mito) que remonta a um evento primitivo, ancestral e, muitas vezes, esquecido. Há muitos séculos, a noite de Guy Fawkes é uma tradição na Inglaterra. No dia cinco de novembro acendem-se fogueiras, fogos de artifício e bonecos são queimados. Neste caso, a explicação atual da comemoração se refere a um homem, chamado Fawkes, um conspirador católico que, no século XVII, na chamada Conspiração da Pólvora, tentou explodir o Parlamento. Entretanto, por trás desta versão existe outra, cuja origem é um ritual muito mais antigo: o festival celta da morte, costume pré-cristão, celebração do dia primeiro de novembro, que encerrava o ano velho e marcava o início do ano novo. O ano que passava era representado por bonecos que eram lançados em fogueiras, como os bonecos e fogueiras da noite de Guy Fawkes. Acreditava-se que durante o festival abria-se uma falha no espaço e no tempo, portal através do qual se comunicavam, naqueles dias, os mortos e os vivos, presente, passado e futuro. A véspera do Festival da Morte era o Halloween, quando espíritos e fantasmas retornavam do além e os mortos caminhavam novamente. No calendário cristão, o dia primeiro de novembro é o "Dia de Todos os Santos" e o dia dois, é o Dia das Almas, o Dia de Finados, quando missas fúnebres encomendadas são rezadas na igrejas. As celebrações atuais são ecos de rituais muito antigos: padrões precedendo padrões e é assim que muitos rituais do passado mais remoto sobrevivem na contemporaneidade.
RITUAIS E RESSONÂNCIA MÓRFICA COM ANCESTRAIS Os rituais são de natureza extremamente conservadora e devem ser executados de um modo certo, que procura semelhança com uma fórmula original utilizada no passado mais remoto. As partes faladas de uma fórmula ou ritual importante, em geral são proferidas em língua sagrada. Os rituais do bramanismo, na Índia, utiliza o sânscrito, língua extinta há tempos e atualmente somente falada entre os brâmanes. As frases e palavras em sânscrito devem ser pronunciadas na entonação e ordem corretas para que os rituais sejam eficientes. Encontramos prática similar no contexto do Cristianismo. A Igreja Copta3, cuja origem remonta à Antigüidade, ainda conserva o copta, língua falada no Antigo Egito. Hoje, no Cairo, o copta ainda existe como referência cultural mas a língua do país é muito diferente da língua falada nos tempos dos faraós. O copta pode ser considerado como uma língua morta entretanto, graças à sobrevivência do copta na liturgia da Igreja Copta, obteve-se um ponto de partida decisivo no processo que permitiu decifrar a língua do Antigo Egito pela tradução dos textos da Pedra Roseta 4. Em todo o mundo, os atos rituais obedecem a fórmulas5: movimentos, gestos, palavras, músicas. Um mesmo padrão, vigente em um país ou região, é conhecido e repetido por qualquer praticante familiarizado com o ritual. A repetição institui, re-institui, preserva a fórmula que foi elaborada em um passado distante. Quando as pessoas são perguntadas sobre o "por quê" fazem isso (repetem cerimônias rituais), respondem com freqüência que tais práticas lhes permite compartilhar ou desfrutar de uma espécie de convivência com seus ancestrais, seus predecessores naquele ritual. Muitos rituais são evocações deliberadas, conscientes apelos a uma remissão da memória das primeiras cerimônias realizadas. Se a ressonância mórfica atua como eu penso, o ritual repetido, conservador de simbolismos e crenças, pode criar as condições propícias à excitação de um campo mórfico que influencia todos os participantes do ritual e todos os que por qualquer experiência idiossincrática adquiriu certa empatia com os significados das cerimônias. A sobrevivência destes rituais em todas as culturas do mundo poderia ser interpretada como decorrência de um sistema de conexões estabelecidas por ressonância. Os rituais "co-memorativos"6, que propõem uma re-ligação com ancestrais, poderiam, então, de fato, produzir uma comunicação transcendental, uma conexão com o passado, em todos os sentidos. MANTRAS E CONEXÃO ESPIRITUAL Sob a perspectiva da teoria da ressonância mórfica vários aspectos religiosos podem apresentar novos significados. Considere-se, por exemplo, o uso dos mantras nas tradições orientais. Os mantras são sons vocalizados (fonemas) sagrados ou palavras que freqüentemente não possuem um significado objetivo. O mais conhecido dos mantras é o indiano OM. Um mantra cristão e, de fato, também é um mantra entre judeus e muçulmanos, é AMEN, que significa, literalmente, "Assim seja", expressão que uma vez adotada foi impregnada de um alto valor como mantra. A forma original, AMEN, é um mantra extremamente poderoso. O "Amen" sobrevive; é um dito que finaliza hinos e orações cristãos embora muitas pessoas não se dêem conta da importância daquele "Amen" tantas vezes repetido. Nas tradições do Tibete e da Índia, o guru ou mestre comunica o mantra ao discípulo como parte da iniciação. Usando o mantra o discípulo pode se conectar com o guru bem como acessar a totalidade da tradição de sua escola. No budismo tibetano existe uma prática de visualização do passado obtida por meio da vocalização do mantra. Os iniciados experimentam a visão do guru flutuando sobre suas cabeças e, então, podem ver toda uma linhagem de mestres que existiram antes daquele que os conduz agora, remontando até o próprio Sidarta Gautama, o Buda. Existem pinturas tibetanas que mostram pessoas sentadas, em meditação; uma árvore cresce em suas cabeças, árvores alegorizadas, que possuem em seus ramos rostos humanos e outras figuras. São as Árvores das Linhagens que representam a evolução espiritual através da qual o conhecimento é transmitido de discípulo em discípulo. Somente a ressonância mórfica fornece uma explicação compreensível para a força dos mantras e também para a permanência de certas proibições que, de outra forma, não fazem sentido. Todas as religiões condenam a blasfêmia e o uso leviano de palavras sagradas, como a proibição judaico-cristã de proferir o nome de Deus "em vão". Quanto aos mantras, as pessoas são sempre instruídas a usá-los somente em contexto adequado, jamais em meio a uma situação casual. Os gurus indianos advertem que o uso incorreto ou abusivo enfraquece o mantra. Isso faz sentido se examinado em termos de ressonância mórfica. A emissão do mantra em condições desfavoráveis, ao invés de funconar como chave de sintonia entre o emissor e uma linhagem de gurus ou com outro nível de consciência, pode produzir uma sintonia aleatória com outras freqüências não desejadas, produzindo uma percepção confusa de sinais, diluindo, corrompendo ou neutralizando a eficiência do mantra.
CAMINHOS RELIGIOSOS E ESCOLAS ARTÍSTICAS Outros aspectos característicos das tradições religiosas tornam-se claros quando se admite a hipótese dos campos mórficos. Muitos mestres religiosos comparam seu modo de ser e viver a um caminho, como no Cristianismo, quando Jesus diz: "Eu sou o caminho" ou como no Budismo e seus oito caminhos de Buda7. Através da iniciação religiosa, o indivíduo é introduzido em práticas que foram experimentadas antes, inúmeras vezes, pelos iniciadores e pelos iniciadores dos iniciadores, como Cristo ou Buda; um caminho que desde o primeiro mestre foi percorrido por legiões de adeptos. As pessoas que "viveram" estes caminhos criaram um campo mórfico; e não somente os pioneiros históricos mas, sobretudo, aqueles que seguiram os pioneiros contribuindo para o fortalecimento do campo tornando o caminho mais fácil de ser percorrido para os que chegaram depois. No cristianismo, este conceito é declarado explicitamente no Credo dos Apóstolos, na doutrina da Comunhão dos Santos e os "Santos" são aqueles que trilharam o caminho nos tempos passados. Aplicando estas idéias às noções de "escolas de pensamento" ou "escolas de arte" temos outras áreas de tradições na qual grupos de pessoas experimentam um ideal comum e um padrão comum de atividade. Novamente, tradições artísticas e filosóficas fazem mais sentido como reflexos de uma pré-organização comunicada pela ressonância dos campos mórficos. Historiadores da arte escreveram sobre "correntes de influência" da escola de Veneza ou da escola Flamenga, por exemplo. Estas misteriosas "correntes de influência" podem ser entendidas como o resultado de um processo de sucessão de escolas de arte sintonizadas com campos mórficos que remetem às primeiras escolas (eu devo esta idéia a Susan Gablik, 1977). Se a criação das pinturas, da telas, é orientada por um campo mórfico que "inspira" seus estilos e expressões representativas, então pode existir um tipo de "linha de criação" que se mantém através da ressonância, algo que funciona por meio de um efeito cumulativo. Um quadro é elaborado no contexto de uma escola; ao longo do tempo, outras pinturas são criadas nos padrões desta escola e a cada nova pintura "imprime-se" uma alteração no campo desta escola. Um animal de certa espécie que sofre a influência de um campo morfogenético correspondente, por sua vez, contribui para a evolução deste mesmo campo; do mesmo modo, a criação de uma obra de arte é influenciada por um campo de estilo, a "escola"; e a escola, em retorno, evolui a cada nova obra.
OS PARADIGMAS CIENTÍFICOS DE THOMAS KHUN E OS CAMPOS MÓRFICOS Uma análise similar pode ser aplicada à história das ciências. Diferentes escolas de pensamento e diferentes áreas de questionamento científico poderiam ter seus próprios campos mórficos. De fato, fala-se em "campo da física", "campo da biologia", "campo da geofísica" e assim por diante; e cada campo da ciência tem seus subcampos. Em física existe a astrofísica, a física quântica e em todas as áreas existem os iniciadores, uma mitologia, um folclore, pais e fundadores. Este é, essencialmente, o insight de Thomas S. Khun, em seu livro The structure of scientific revolutions (A estrutura das revoluções científicas, 1970). Ele diz que a ciência é uma atividade social e que os cientistas são iniciados como profissionais dentro de grupos já constituídos de cientistas veteranos. Estes grupos sociais são autoreguláveis e auto-organizados, como são muitos outros campos estruturantes. Os cientistas reagem logo quando "leigos na área" fazem críticas ou sugestões aos procedimentos de uma especialidade. Físicos, por exemplo, estão certos de que são os melhores para julgar o que é válido em fenômenos físicos. Quando as autoridades governamentais querem regular a ciência física para seus próprios fins, fazem isso com auxílio de físicos. Eles organizam comitês e agências onde se reúnem com seus pares para examinar as questões. Outros grupos profissionais seguem este padrão: associações comerciais, a Associação Médica Americana etc.. Khun destaca que, em geral, existe um consenso dentro de cada grupo sobre os temas e problemas considerados relevantes como objeto de atenção bem como existe um consenso sobre um modo correto de abordagem dos problemas. É que se chama de paradigma. Em seu livro, Khun usa a palavra paradigma em dois sentidos, o quê fica claro na segunda edição da obra. O paradigma não é somente um caminho conceitual de abordagem dos objetos, um modelo; antes, é uma experiência consensual, uma visão da realidade que norteia o pensamento de uma comunidade profissional. Em cada grupo, os membros estabelecem um modelo sobre o perfil daqueles que podem ser considerados como seus pares e aqueles considerados leigos, estranhos que não se encaixam no padrão do grupo. Este é o aspecto social do paradigma. O paradigma relaciona-se a modelos de problemas e de soluções, caminhos, perspectivas. O paradigma de Newton é um modelo de abordagem para questões da física. As equações gravitacionais newtonianas são exemplo de modelo. Os estudantes, enquanto percorrem os estágios rumo à níveis de graduação cada vez mais elevados, deparam-se com problemas cuja complexidade vai aumentando e sempre recorrem a exemplos, modelos de solução. A troca de paradigma implica a adoção de novas perspectivas de solução, nova orientação de pensamento, novo consenso de grupo. Goblik e Khun comparam o conceito de paradigma, nas ciências, à noção de estilo, na arte; paradigmas possuem um tipo de desenvolvimento cumulativo, qualidade característica do estilo nas tradições artísticas. Khun desenvolve bastante a teoria que aproxima os modelos de desenvolvimento das ciências e das artes. Até então, as ciências eram tratadas como se fossem uma atividade da razão em isolamento e que evolui baseada no acúmulo imparcial de conhecimentos, completamente dissociada de outras práticas sociais. A ciência somente tinha lugar no contexto de uma ambiência estritamente científica. Khun demonstrou que os mesmos padrões aceitos por historiadores da arte são vigentes também na orientação de trabalhos científicos. Paradigmas entendidos como reflexos de campos mórficos são coerentes com o forte poder de manutenção que estes modelos apresentam. As contribuições de todas as esferas da vida social são o fator que permite aos paradigmas se estabelecerem com força de permanência. Uma ressonância mórfica poderosa é gerada pelo "fazer as coisas de certa maneira". As mudanças de paradigma são difíceis exatamente porque existe uma grande resistência em um padrão vigente que, para ser mudado, exige uma interferência poderosa capaz de gerar uma ressonância impositiva. ________________________ NOTAS: 1. A gravidade atua sobretodos os corpos que e xistem na órbita do paaneta Terra porém, com diferentes intensidades, de acordo com a massa dos corpos, movimento, velocidade, sentido, localização em relação ao nível do mar etc.. [N. do T.] 2. Episódio bíblico da história de Moisés. [idem] 3. Copta: idioma dos coptas, antigos habitantes do Egito, foi falado até o século XVI; persiste em nossos dias como língua litúrgica dos cristãos monofisitas egípcios. (ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA - v. 15, p. 130. São Paulo: Melhoramentos, 1966. N. do T.) 4. Pedra Roseta: fragmento de estela de basalto negro (parte de coluna monolítica), foi descoberta perto da cidade egípcia de Roseta, em 1799. Encontra-se no Museu Britânico e possui inscrições em três idiomas: uma em hieróglifos, outra em demótico e a terceira em grego. Foi decifrada pelo sábio orientalista Champollion que se utilizou de seus conhecimentos do copta e dos idiomas semíticos. O acerto de Champolilion foi estabelecer o copta como uma evolução do idioma do Antigo Egito. (ENCICLOPÉDIA BRITÂNICA - v. 7;15, p. 306;429. São Paulo: Melhoramentos, 1966. N. do T.) 5. Os rituais são, sob seu aspecto de realização formal, semelhantes a roteiros que orientam uma dramaturgia coreografada. O ritual é um evento programado e possui um texto, em boa parte, pré-estabelecidos. Observe-se a missa católica, com suas passagens obrigatórias, momentos para sentar, ajoelhar e ficar de pé, a resposta dos fiéis à oração do sacerdote etc.. Outro exemplo de gestual padrão é a cerimônia do chá, da cultura japonesa, mistura de exercício filosófico e meditação. [N. do T.] 6. Como memorar coletivamente, provocando e desfrutando de lembranças comuns.[idem] 7. "Os Oito Nobres Caminhos de Buda compreendem: percepção correta, pensamento correto, fala correta, comportamento correto, meio de vida correto, esforço correto, atenção correta e concentração correta." (A doutrina de Buda. São Paulo: Martin Claret, 2003 -col. Obra prima de cada autor) |
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ENSAIO - PARTE II
tradução: ligia cabús